Livro Antígone tem medo das comida dos mortos, Demonia Editora, 2025, 19 páginas.
Livro Antígone tem medo das comida dos mortos, Demonia Editora, 2025, 19 páginas.
Antígone tem medo da comida dos mortos é "um romance rápido, tão sucinto quanto um poema, feito para aqueles que se abandonam." Escrito a partir da fome: "Ninguém suportará ler uma escritora que não come." Uma Antígone que nã tem um irmão a quem sepultar, há apenas algumas mães e homens pairando sobre o espaço-tempo da cura. Aqui, Instaurado o termo "verbofagofobia" (o medo de comer palavras) resta alguma espécie de vazio com o qual preencher o próprio corpo.
Posfácio, por rivka
Esse livro é "um romance rápido, tão sucinto quanto um poema, feito para aqueles que se abandonam." É um livro em que há recusas, e a primeira delas é a recusão da extensão. A brevidade constitui, por si só, uma espécie de manifesto, algo se inscreve nela.
Para Judith Butler, Antígona desafia as estruturas da política e do parentesco através da linguagem, ao recusar reconhecimento às ordens de Creonte. Ao recusar as ordens de Creonte para sepultar adequadamente seu irmão, Antígona dá preferência à lei do parentesco, em detrimento à lei do estado. Ao fazer isso, porém, ela se torna qualquer coisa de aberrante, qualquer coisa de pervertida.
A Antígone de Luna faz uma recusa ainda mais radical, ela recusa ambas as leis, ela recusa todas as leis. Não há, aqui, irmão a sepultar. A ordem apenas é recusada e cria-se, assim, um vazio. O banquete também é recusado, e o vazio preenche também o corpo. "Verbofagofobia": o medo de comer palavras. Por isso, se recusam ambas, comida e palavras. O que sobra para preencher o vazio? Um caso de amor com alguém que não existe.
A única coisa que do parentesco permance aqui são as mães. Uma, a própria mãe, por quem não há amor. A outra, é a mãe cujo filho não existe. Mesmo essa ideia residual de parentesco está corrompida. Não há poder que possa ser exercido a partir daqui.
O tempo todo há uma anunciação de um "capítulo apaixonado." Pode-se imaginar que o livro é o próprio "capítulo apaixonado." Mas o "capítulo apaixonado" parece ser sempre anunciado, está sempre por vir, mas parece nunca chegar. É essa expectativa, e essa ansiedade constante que dá o tom. É possível perceber que o livro carrega um desejo, porém é muito difícil entender o que é esse desejo, delineá-lo. Porque há abandono, porque há recusa, e com isso restam grandes vazios.
Esse livro é o que resta entre os vazios. É o que resta quando se tem medo do banquete dos mortos.